A Reforma Tributária ainda está em fase de transição, mas seus impactos já são reais — especialmente no caixa das micro e pequenas empresas. Diferente de reformas anteriores, o novo modelo de tributação sobre o consumo não se limita a ajustes de alíquotas ou mudanças na legislação. Ele exige transformações profundas na forma como as empresas gerenciam dados, processos e decisões estratégicas.
A convivência entre o sistema atual e o novo — que inclui tributos como o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o Imposto Seletivo — tem criado um terreno fértil para erros operacionais que passam despercebidos no dia a dia, mas corroem margens, comprometem a competitividade e fragilizam a saúde financeira dos negócios.
A seguir, detalhamos os principais erros que já estão custando caro durante a transição da Reforma Tributária — e o que empresas e contadores precisam fazer agora para evitá-los.
1️⃣ Precificar com base no modelo antigo de ICMS e ISS
Um dos erros mais comuns é manter a precificação baseada em lógicas antigas, muitas vezes sem critérios técnicos claros. Com a chegada do IBS e da CBS, a carga tributária deixa de seguir exclusivamente a lógica da origem e passa a considerar fatores como:
- Tipo de produto ou serviço
- Local de consumo
- Canal de venda
- Perfil do cliente
A chamada “neutralidade fiscal” da Reforma é sistêmica, não individual. Na prática, isso significa que algumas empresas pagarão mais tributos, enquanto outras pagarão menos — e só saberá quem tem dados confiáveis e visão integrada de custos, tributos e margens.
Erro comum: manter preços defasados, assumir margens negativas sem perceber e perder competitividade.
2️⃣ Confundir gestão financeira com gestão fiscal
Embora caminhem juntas, gestão financeira e gestão fiscal não são a mesma coisa. Durante a transição da Reforma, confundir esses conceitos pode gerar decisões extremamente prejudiciais.
- A gestão financeira cuida de fluxo de caixa, rentabilidade, capital de giro e planejamento.
- A gestão fiscal garante conformidade legal, apuração correta e recolhimento de tributos.
Com dois sistemas tributários coexistindo, ajustes de crédito e possíveis aumentos de recolhimento no curto prazo, empresas que não têm essa separação clara acabam tomando decisões baseadas apenas no imposto pago — e não no impacto real no caixa.
Resultado: falta de previsibilidade financeira e decisões reativas, sempre “apagando incêndios”.
3️⃣ Ignorar a tributação no destino das vendas
A Reforma Tributária muda um dos pilares do sistema: a tributação deixa de ser na origem e passa a ser no destino. Isso afeta diretamente empresas que vendem para outros estados ou prestam serviços fora de sua localidade.
Agora, o custo tributário depende de:
- Quem é o cliente
- Onde ele está
- Como a venda ou prestação de serviço ocorre
Sem controle por cliente, região, canal e tipo de operação, muitas empresas perdem totalmente a visibilidade dos custos reais de cada venda.
Consequência: decisões comerciais equivocadas, contratos mal precificados e queda de rentabilidade.
4️⃣ Não controlar corretamente os créditos na não cumulatividade plena
A não cumulatividade plena é um dos grandes avanços prometidos pela Reforma Tributária. No entanto, ela só beneficia quem tem controle de dados.
Muitas empresas:
- Não sabem exatamente o que gera crédito tributário
- Não organizam corretamente notas fiscais de entrada
- Classificam compras de forma inadequada
Sem esse controle, os créditos deixam de ser aproveitados, fazendo com que a empresa pague mais imposto do que deveria — anulando qualquer benefício do novo modelo.
Aqui, o problema não é a lei, mas a gestão.
5️⃣ Tratar o estoque apenas como um problema logístico
Na nova lógica tributária, estoque é um fator financeiro e fiscal estratégico. Classificação incorreta, custos errados ou falta de controle impactam diretamente:
- O preço final
- A margem de lucro
- O crédito tributário
- O cálculo do IBS e do Imposto Seletivo
Planilhas isoladas e controles manuais dificilmente dão conta dessa complexidade.
Empresas sem controle de estoque correm o risco de pagar impostos desnecessários e perder margem sem perceber.
6️⃣ Prestadores de serviços não revisarem contratos e modelos de cobrança
O fim do ISS não significa o fim da tributação sobre serviços — significa sua reformulação dentro do IBS. Prestadores de serviços que não revisarem contratos, cláusulas de reajuste e modelos de cobrança durante a transição podem enfrentar prejuízos silenciosos.
Será necessário decidir estrategicamente:
- O que pode ser absorvido pela empresa
- O que precisa ser repassado ao cliente
- Como manter competitividade sem comprometer a margem
Isso exige simulações, cenários e visão integrada do negócio — algo impossível sem uma gestão estruturada.
A Reforma Tributária não é só fiscal. É uma mudança de mentalidade.
Mais do que aprender novas regras, a Reforma Tributária exige uma nova postura de gestão. O sucesso na transição dependerá menos de cálculos isolados e mais de:
- Qualidade dos dados
- Integração entre financeiro, fiscal e operação
- Acompanhamento contínuo do negócio
- Tomada de decisão baseada em informação, não em achismo
Para micro e pequenas empresas, antecipar ajustes agora pode ser a diferença entre perder margem ou ganhar eficiência nos próximos anos.
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